Quarenta: a fórmula para o hip hop ecléctico

Quarenta: a fórmula para o hip hop ecléctico

Foi lançado esta segunda-feira o novo álbum de originais de Carlão. Quarenta marca o regresso aos discos, mas é muito mais do que isso; é a retrospectiva da vida do rapper que comemora agora quatro décadas de vida. Não há como associar este álbum a outro em que Carlão já esteve envolvido. Não é tão experimental como a sua presença nos 5-30, nem tão cru como nos Da Weasel. Mas então o que é este álbum? – perguntam os leitores. É hip hop ecléctico.

“Muito certo para mitra, muito chunga para beto” é o que se pode ouvir na faixa nove, Comité Central, mas é também uma boa referência para o que é este álbum. Só alguém com uma carreira como a de Carlão consegue chegar a estes dois públicos tão diferentes. Quarenta dá-nos tudo o que o hip hop pode dar, spoken word, hip hop puro e duro vindo da rua ou ainda hip hop com cheiro a pop bem orelhudo pronto a rodar nas rádios. Mesmo que não gostemos de todos os estes géneros, em Quarenta ouvimos e gostamos. Magia? Não, são mais de 20 anos de carreira a virem ao de cima.

Se Quarenta é a celebração dos 40 anos de vida do autor, então temos de ter convite. Intro (Quarenta) não é apenas uma faixa para encher com instrumental. É antes um índice do que podemos encontrar no álbum, mas também na vida.

 

Nas três faixas seguintes, Carlão opta por nos mostrar o seu caminho. Primeiro com Entre o Céu e a Terra, onde podemos ouvir o lema de vida do autor e também perceber como é que este chegou onde chegou. Depois, Krioula, música que tem a participação de Sara Tavares, ouvimos que já não é o Carlão das ruas, mas sim um homem mais maduro que encontrou a mulher certa e quer mostrar que fará tudo para ficar com esta. Por último, neste ciclo de três faixas, vem o primeiro single do álbum, Os Tais, que é a sequência natural de Krioula, pois na faixa número três podemos ver que Carlão já está adulto. Musicalmente falando esta é a música mais pop e radio-friendly.

http://www.youtube.com/watch?v=XOhGD8mDzKM
 

Outra Casa, Outra Coisa rasga completamente tudo o que ouvimos até aqui. Carlão encarna uma espécie de Kanye West e, com um ligeiro auto-tune acompanhado por um instrumental que nos remete para imaginários brancos e celestiais, diz-nos que não nos devemos agarrar aos bens materiais. Este tipo de letras só é possível no Carlão e num disco que quer ser um manual de vida até aos quarenta. Outra Casa, Outra Coisa é, provavelmente, uma das melhores faixas do álbum.

Se tão depressa fomos levados para o imaginário calmo da Outra Casa, Outra Coisa é também rapidamente que de lá saímos. Topo do Mundo é uma faixa curta, apenas dois minutos, e tem como principal função avisar o ouvinte que vai entrar noutra dimensão, talvez mais próxima da rua, mais crua. Colarinho Branco e Comité Central são os sons que mais nos remetem para as ruas das cidades e para experiências comuns para ouvinte e autor. A primeira é um manifesto contra a corrupção e para o poder com claras alusões, vindas de samples, a casos como o Banco Espírito Santo. “Colarinho Branco merece mão pesada, tiras do povo só levas uma palmada” é uma das muitas linhas em que Carlão critica a justiça e os governantes.

Comité Central conta com o som mais sombrio, aquele que nos transporta para as ruas, de todo álbum. Aqui somos confrontados com aquela típica música de hip hop em que o rapper critica todos os outros que não respeitam o seu trabalho.

 

Blá Blá Blá, Nuvens e Não Esperes Por Mim, esta última parece mal colocada na sequência, são temas que levam para o romance. Blá Blá Blá, com a participação de Sara Tavares, é um tema simples com pouco mais do que uma guitarra e voz, mas é um dos mais deliciosos de todo o álbum. Nuvens faz-nos lembrar outra vez de Kanye West, embora agora mais pelo instrumental do que pelo auto-tune. Destaque para Dino d’Santiago que participa neste tema e que ajuda no contraste entre o refrão e a rima de Carlão.

Apesar de não ser o último tema, Nós podia perfeitamente sê-lo. Carlão recorre novamente a um instrumental com graves mais pesados e, com a ajuda de um coro, transforma esta música numa espécie de hino para a geração. Podemos, mas não queremos é uma das muitas feridas em que Carlão põe o dedo. No entanto a música está construída de uma forma incrível em que começamos a interiorizar as palavras de Carlão e quando damos por nós já estamos de pé prontos para ir para a luta. Parte deste fenómeno deve-se a um instrumental brilhantemente produzido.

 

Tracklist completa:

  1. Intro (Quarenta)
  2. Entre o Céu e a Terra
  3. Krioula (com Sara Tavares)
  4. Os Tais
  5. Outra casa, Outra Coisa
  6. Topo do Mundo
  7. Não Esperes Por Mim (com New Max)
  8. Colarinho Branco
  9. Comité Central
  10. Blá, Blá, Blá (com Sara Tavares)
  11. Nuvens (com Dino d’Santiago)
  12. Nós
  13. Outro (Um Minuto)

Nota Final: 8/10

Quarenta é um grande álbum, traz-nos tudo o que de melhor o hip hop pode dar, mas sem qualquer tipo de preconceitos, com histórias que podiam ser de qualquer um. A experiência é sem sombra de dúvidas a mais valia deste disco, os vinte anos de carreira de Carlão mostram que ser brilhante em todos estes géneros não é coisa fácil.

carlão quarenta